segunda-feira, 30 de março de 2009

‘O termômetro das mulheres é: “Estou sendo amada ou não? Esse bocejo, seu rosto entediado... será que ele me ama ainda?” A mulher não acredita em nosso amor. Quando tem certeza dele, pára de nos amar. A mulher precisa do homem impalpável, impossível. As mulheres têm uma queda pelo canalha. O canalha é mais amado que o bonzinho. Ela sofre com o canalha, mas isso a justifica e engrandece, pois ela tem uma missão amorosa: quer que o homem a entenda, mas isso está fora de nosso alcance. A mulher pensa por metáforas. O homem, por metonímias. Entenderam? Claro que não. Digo melhor, a mulher compõe quadros mentais que se montam em um conjunto simbólico e misterioso, como a arte. O homem quer principio, meio e fim. Não estou falando da mulher sociológica, nem contemporânea, nem política. Falo de um sétimo órgão que todas têm, de um “ponto G” da alma. ’

- Arnaldo Jabor

C'est la vie

sábado, 28 de março de 2009

Hipócrita

                Sou um hipócrita. Isso mesmo: eu, hipócrita e ponto final. Sou estudante de biologia, estudo e estudei bioquímica, biologia celular, efeitos de radiações, biologia molecular, citogenética e sei de todos os males do tabaco. Mesmo assim, não resisto no meu fim de semana de acender um, ou vários, cigarros e fumar narguile com amigos. Mutações causadas pelos componentes do cigarro na estrutura do DNA são permanentes, cumulativas e cedo ou tarde vão causar problemas, se não isso, vou ter renite, problemas na traquéia e detonar minha voz. Sei dos problemas que o álcool causa no corpo, seja no fígado, rins ou cérebro, mas continuo bebendo mesmo assim.

                Agora vi na televisão a propaganda de uma dessas ações globais: “A Hora do Planeta”.  Para quem não sabe, é um movimento organizado pela WWF que pede para que hoje, dia 28 de março de 2009, após as 20h30min, todos desliguemos as luzes de nossas casas por 60 minutos como protesto contra o aquecimento global. Várias cidades do Brasil já manifestaram apoio e irão desligar as luzes de monumentos importantes, como o Cristo Redentor no Rio de Janeiro e a ponte Hercílio Luz aqui em Florianópolis, durante o manifesto. Muito legal e muito bonito.

                Está bem, vamos participar, hoje vamos mostrar para o mundo como nos preocupamos com o planeta onde moramos. Mas e depois? O que vamos fazer? Voltar a andar em nossos carros off-Road, que usamos para andar on-Road, que gastam litros de gasolina, ou diesel, por quilômetro? Deixar lâmpadas incandescentes ligadas à toa, fazendo com que mais carvão seja queimado ou áreas alagadas para termos energia? Continuar criando gado que destrói nossas matas nativas e jogam litros de metano para a atmosfera? Jogar nosso esgoto nas nossas belas praias? Ocupar áreas de encostas em morros, mangues e dunas, desmatando áreas de proteção ambiental e aterrando berçários de vida marinha? Desmatar nossa pequena mata atlântica para plantar eucaliptos e Pinus para celulose? Tomar aquele gostoso e quentinho banho de meia hora?

                É muito bonito usar camisas sobre questões ambientais, falar que você acha que o aquecimento global é bobo e feio. Ver o filme do Al Gore e dizer que mudou sua concepção do mundo. Agora, quem realmente faz alguma coisa para mudar a situação?

                Por isso que digo: sou um hipócrita, e dos grandes. Mas pelo menos admito isso, não me escondo por trás de ideologias falsas. Você também é um. Todos somos. Mas vamos, não se acanhe, pode apagar as luzes de sua casa hoje, só não acenda de novo depois de 10 minutos e diga que participou da Hora do Planeta.

quinta-feira, 26 de março de 2009

Liberdade

O sol nascia por entre as montanhas da Serra das Araras. O cavalo pastava calmo o capim amarelado, úmido de orvalho. Deitado no chão, um homem negro dormia com a cabeça apoiada em um travesseiro improvisado, feito de trapos enrolados. As roupas velhas e sujas de barro denunciavam sua pobreza. Estava cansado. Cavalgara a noite inteira, sem descanso. Parou só quando não via sinal do homem por perto. Tinha deixado todos para trás, trouxe apenas o pouco que conseguiu: as roupas do corpo, trapos e um pão. O cavalo ele roubara do estábulo.

A fuga, planejada durante muitos dias durante o trabalho na lavoura, ocorreu como ele queria. Observara os capatazes durante a noite, sabia dos seus movimentos, e conhecia as matas melhor que todos. Saíra da senzala na calada da noite, quando os guardas estavam distraídos jogando cartas, e correra para os estábulos. De lá fugiu pela extensa mata, sem rumo, indo na direção que seu instinto mandava.

Sonhava com o momento de liberdade desde que foi raptado por brancos em sua vila. Ainda era pequeno, não pode fazer nada. Foi levado em um grande navio, cheio de outros negros. Durante meses ficou trancafiado em um porão. Lá viu de tudo: estupros, assassinatos, pessoas morrendo por doenças ou fome. Quando finalmente saiu do navio, foi tratado como um objeto e vendido para outros brancos.

Agora estava lá, deitado no chão, com fome e frio. A luz solar o acorda gentilmente. Coçando os olhos ele se levanta, e admira o horizonte. Finalmente estava livre.

Contos Infantis (Parte IV)

IV

                O som de sítar ressoava na pequena sala vindo do velho aparelho toca-discos, com o leve chiado típico dos bons aparelhos analógicos adicionando um ar de nostalgia ao som. Junto à batida psicodélica e o canto indiano, uma velha senhora regava suas preciosas plantas, vindas da conexão Londres/Amsterdam. Iluminadas pelas lâmpadas vermelhas e azuis mostravam tamanho surpreendente e suas flores, com um aroma típico, recebiam tratamento especial pela idosa.

                Após regar as plantas, a velha senhora se sentou no sofá azul, meio encardido, com braços de madeira, perfeitos para apoiar uma boa taça de vinho, e estampa de flores azuis claras, e procurou alguma coisa em seu longo vestido, feito de fibras de cânhamo cruas, no estilo anos sessenta, ele dava à senhora de cabelos grisalhos longos, enrolados em duas tranças que pendiam pelos ombros, um aspecto extremamente hippie. De um pequeno bolso escondido no decote ela puxou um pequeno cantil de alumínio, cheio de vinho e entornou-o em um único gole. Um sorriso apareceu na face calejada pelo tempo, repleta de rugas, mas que ainda apresentava a beleza dos olhos extremamente azuis.

                Um curto estampido interrompeu o estado de plenitude da senhora, barulho logo reconhecido por ela como o fim do vinil. Lentamente ela se levantou, retirou o disco do aparelho, guardou-o e andou pacientemente até a prateleira repleta de LPs, onde procurou por um substituto, dessa vez mais calmo que o anterior. Por fim decidiu-se pelo de uma velha hippie bluesera conhecida também como Pearl. Ao som do vocal rouco e gritante da música, a senhora se sentou novamente no sofá, dessa vez fitando as suas maravilhosas plantinhas, mas com o olhar distante. Naquela manhã ela tinha ligado para sua única neta, Maria Joana, pedindo alguns favores, já era hora da menina ter chegado, o que preocupava a anciã, mas ela sabia que sua neta chegaria cedo ou tarde.