terça-feira, 28 de setembro de 2010

Nota de rodapé

Nascer no Cairo, ser fêmea de cupim

Conhece o vocábulo escardinchar? Qual o feminino de cupim? Qual o antônimo de póstumo? Como se chama o natural do Cairo?

O leitor que responder "não sei" a todas estas perguntas não passará provavelmente em nenhuma prova de Português de nenhum concurso oficial. Alias, se isso pode servir de algum consolo à sua ignorância, receberá um abraço de felicitações deste modesto cronista, seu semelhante e seu irmão.

Porque a verdade é que eu também não sei. Você dirá, meu caro professor de Português, que eu não deveria confessar isso; que é uma vergonha para mim, que vivo de escrever, não conhecer o meu instrumento de trabalho, que é a língua.

Concordo. Confesso que escrevo de palpite, como outras pessoas tocam piano de ouvido. De vez em quando um leitor culto se irrita comigo e me manda um recorte de crônica anotado, apontando erros de Português. Um deles chegou a me passar um telegrama, felicitando-me porque não encontrara, na minha crônica daquele dia, um só erro de Português; acrescentava que eu produzira uma "página de bom vernáculo, exemplar". Tive vontade de responder: "Mera coincidência" — mas não o fiz para não entristecer o homem.

Espero que uma velhice tranqüila - no hospital ou na cadeia, com seus longos ócios — me permita um dia estudar com toda calma a nossa língua, e me penitenciar dos abusos que tenho praticado contra a sua pulcritude. (Sabem qual o superlativo de pulcro? Isto eu sei por acaso: pulquérrimo! Mas não é desanimador saber uma coisa dessas? Que me aconteceria se eu dissesse a uma bela dama: a senhora é pulquérrima? Eu poderia me queixar se o seu marido me descesse a mão?).

Alguém já me escreveu também — que eu sou um escoteiro ao contrário. "Cada dia você parece que tem de praticar a sua má ação — contra a língua". Mas acho que isso é exagero.

(…)

Rubem Braga

Para ler a crônica completa, clique aqui.

sábado, 25 de setembro de 2010

Folhetim

bianca-duplo-um-certo-fascinio-os-mandamentos-do-amor_1

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- Porra, de novo com esses livros?! Já falei, vai ler alguma coisa decente! – Gritei indignado ao entrar no quarto.

- Não gosto que você fale isso dos meus livros. – Disse ela enquanto fechava o “Bianca” em seu colo e baixava seus óculos finos, me olhando por cima, com uma cara docemente irritada.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Dica

Dica aos melancólicos de plantão:

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A edição de setembro da revista Mente e Cérebro traz três ótimas matérias sobre um mal que assombra muita gente e é muito mal interpretado: a depressão; além de outras matérias interessantes, todas relacionadas à psicologia e ao cérebro.

Ao contrário de revistas como a Superinteressante, a M&C é escrita pelos próprios pesquisadores em forma de divulgação científica (me desculpem jornalistas).

Só para dar mais credibilidade, a Mente e Cérebro é editada pelo mesmo grupo que produz a Scientific American.

Custa R$11,90. Dez centavos menos que aquela Piauí que vocês cults adoram.

A dica foi dada.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Echar de menos

buenos aires (396)

A Avenida de Mayo parecia um pouco diferente naquela noite. Mais colorida, clara, movimentada. O vento frio embalava a fumaça do meu último cigarro por entre os carros. Quando o táxi chegou, arremessei o cigarro com os dedos, tirei meu chapéu e sentei no banco de trás, abandonando minhas malas ao meu lado.

- Donde?

- Ezeiza.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Plantão

Tive de trabalhar durante um tarde fria e chuvosa. Ficar de plantão ao telefone, quebrar um galho a beneficio de todos. Coisa pouca e simples. Pelo menos em tese. Quando cheguei ao trabalho, resoluto em minha função, descobri-me completamente sozinho, acompanhado apenas de um computador temperamental e uma biblioteca cheia de livros vazios e algumas pérolas. Andei por entre seus ínfimos corredores, como um rato procurando pelo queijo. Kafka, já lera; Veríssimo também, Sidney Sheldon, não mais; e encontrei-me com Woody Allen. Mergulhei em seus contos filosóficos e satíricos, devorando-o simplesmente. As páginas encontraram seu fim e, logo, voltei ao começo.