terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Serrana – Parte II

(parte I)

Revólver Smith & Wesson de prataEm um bolicho, o sargento Rubião, com seu vasto bigode negro como carvão, uniforme cáqui e cabelo à escovinha, sentou-se a mesa com João Pardal.

“Boa tarde.” Disse o sargento com a voz mais séria possível. João levantou os olhos por baixo do chapéu e meneou a cabeça.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Serrana – parte I

Serra-Catarinense

Existem histórias perdidas no coração de Santa Catarina que, se contadas, pessoas achariam que eram do começo do século XX, ou de outra parte do Brasil. Histórias como estas, são comuns até hoje, nesse pequeno e mal cuidado estado do Sul, mesmo que a que contarei aconteceu há mais de trinta anos.

sábado, 24 de dezembro de 2011

Retiro

Retiro de fim de ano proveitoso. O nada para fazer resulta no tempo para fazer algo. Ainda mais com um computador quase sem internet. Três livros excelentes lidos, em pouco mais de uma semana, são o saldo positivo, algumas caixas de cerveja são o saldo colateral, e nada como saldo negativo. Esse é o fim de ano que procuro.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Sequel

sequel

Sabe quando um filme faz muito sucesso e os estúdios de cinema ficam loucos por uma continuação, mesmo que ela não seja tão boa quanto o primeiro filme? Tipo Piratas do Caribe ou o segundo Indiana Jones? Pois é. A continuação nunca é boa como o original. Algumas exceções, claro, como Rocky. Mas, como regra geral, a continuação é uma boa oportunidade de ficar quieto.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Da Lata

Maconha da lata

Hoje, em meio a cervejas e conversas nostálgicas, um amigo gaúcho falou:

“Cara, tenho várias decepções na minha vida... No futebol, por exemplo, é que nunca vi o Zico jogar ao vivo, mas quando o assunto é festejar... Nunca me perdoo por não ter fumado da lata...”

Sorri e falei, com a cara de gato que acabou de comer o periquito da família:

“É, valia a pena...”

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Cara, é muito tiro!

Gelson Domingos da SilvaO dia estava agitado na primeira hora da manhã na Unidade de Pronto Atendimento do bairro de Santa Cruz, Rio de Janeiro. Pacientes esperavam desde às 22h do dia anterior na fila quando seis homens fortemente armados do Batalhão de Operações Especiais (BOPE) invadiram o ambulatório com um homem nos braços. Carregavam o corpo de Gelson Domingos da Silva.

Gelson nasceu em 1965, na favela do Vidigal. Viveu a história clássica dos moradores das favelas cariocas tomadas pelo tráfico: menino mulato, pobre e vaidoso que, ao descer para o asfalto, sofre na pele a desigualdade social da cidade – isca perfeita para os aliciadores do crime. Ele chegou a flertar com as atividades do mundo das drogas, trabalhando como “aviãozinho” e fazendo pequenas em troca de alguns agrados, mas parou por aí.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

O celular perdido (parte II)

parte I

vi

A casa Dela, porque não peguei seu nome – sempre quero acabar a conversa pelo telefone o mais rápido possível e acabo esquecendo de perguntar coisas básicas -, era na metade do caminho do ônibus. Como o ônibus faz mais voltas que um navio navegando contra o vento, de carro o caminho seria infinitamente mais rápido. E eu tenho um carro. Velho. E problemático. Mais de dez anos de estrada, popular, com certo vazamento, faróis temperamentais que gostavam de parar de funcionar – deixando-me somente com o farolete, ou com sorte, o farol alto – e o baixo orçamento para combustíveis fósseis, faziam do vale-transporte a opção mais viável. Mas para uma viagem breve, o Ventania, sim, esse é o nome do meu carro, seria ótimo. Tão ótimo quanto botar um ponto final naquela história. Peguei a chave, montei no Ventania e rumei até a casa Dela.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

O celular perdido

celular

Pegar o ônibus depois das nove da noite, sozinho, sem o fone de ouvido do celular para escutar uma música nunca é bom. Você está cansado de trabalhar e, ou, estudar o dia inteiro e ainda tem que enfrentar o caos do coletivo viário de Florianópolis. Então você senta, fica olhando pela janela o comércio fechado, travestis chegando ao ponto e cachorros passeando, ou dá aquela olhadela quase discreta para as pessoas também entediadas no ônibus.

E era assim que eu estava. Sentado sozinho, olhando pela janela, sonhando alto com o que fazer na quinta-feira. Quando resolvi dar a olhadela semidiscreta para o banco ao lado, vi ela. Sim, ela. Gosto de escrever assim “então vi ela”, não “a vi” ou “vi tal-mulher-fazendo-tal-coisa” porque assim existe um ar clichê, misturado com dar uma pausa para eu pensar e descobrir como vou escrever a próxima frase. Mas vi ela. Pensando bem, “vi ela” é meio cacofônico. Então eu a vi. Isso, melhor.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Divã

Divã

“Sente-se”

A psicóloga pediu calmamente quando entrei no consultório. Era a primeira vez que eu ia a um psicólogo. Não pude evitar me sentir avaliado por aqueles óculos de massa negra, do pé à cabeça, passando pela minha roupa, mochila, barba e cabelo.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Aurélio

dicionario-aurelioCaro senhor Aurélio,

Venho por meio desta, sugerir a modificação dos verbetes anexados em sua próxima edição. Os publicados em sua última coleção estão desatualizados quanto ao contexto social de uma nova geração, ligada às mídias alternativas e globalizada.

Atenciosamente,

Kaxopa

domingo, 23 de outubro de 2011

Maxine

Louise-Brooks

“Acabei com meu namorado, bebi garrafas de tequila, li pensamentos de artistas,... ahm...” Maxine parou para pensar e tomar fôlego em seu discurso cheio de razão. “Saí muito, fumei maconha, transei com um amigo... Sabe, aproveitei pra caralho.” Concluiu a frase colocando o cigarro na boca. Estava sentada daquele jeito fêmea fatal – não sei francês – de vestidinho preto, pernas cruzadas, o cotovelo apoiado no joelho e o corpo deslocado para frente.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Confiança

garrafa-bebida2

Um grande amigo chegou completamente bêbado à casa de praia em que alugávamos. Eram férias de inverno, ninguém tinha nada para fazer em suas casas, todas eram pequenas e não queríamos passar todas as noites em bares caros da cidade. Então, alugamos uma casa no Pântano do Sul, e, como era baixa temporada, o preço saiu baixo. Muito baixo.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Cadelinha

cocker

Sentei no banco daquela praça miúda de uma cidade, também miúda, do interior. O tempo nublado, abafado, com golfadas abafadas de vento jogando meu cabelo para cima da barba. Eu não queria me referir a palavra “ócio”, mas aquele era um exemplo de dia ocioso. Sábado morto, como o clima naquela tarde, numa cidade que também parecia morta. A única alma viva na pequena praça era eu, mesmo letárgica de calor.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

O caso (parte III-Fim)

(parte I e parte II)

cinzeiro

Todos poderiam passar batidos pelo pequeno caso que rolava. Mas, como sempre, eles foram ficando desleixados, preocupando-se menos com os amigos e começaram a fazer tudo em publico. Mas juravam que era apenas uma vez por semana. Só para aliviar a tensão, sabe como é? Seguravam-se para não fazer mais de uma vez, porque era gostoso, aliviava muito a semana. E o papo era ótimo.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

O caso (parte II)

(parte I)

vinho2

Continuavam toda semana a se ver, trocar aquela conversa gostosa de novidades e conquistas semanais, tomando uma garrafa de vinho, ou umas garrafas, mas continuavam se vendo. E a amizade continuava forte e longe de desejos sexuais e dramas que poderiam prejudicá-los.

Até uma noite, na terceira garrafa de vinho.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

O caso (parte I)

homem-mulher-fumando

Os dois se conheciam há anos. Na verdade, desde o ensino fundamental. Chegou o ensino médio, foram estudar na mesma escola; chegou a faculdade, ai tiveram de se separar. Mas apenas no curso, o campus era o mesmo, então sempre tomavam um cafezinho juntos. Conversa vai, conversa vem, acabavam se atrasando para a próxima aula, ou, pior, para o encontro com seus amantes.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

O rouxinol, a rosa e Wilde

 
Oscar Wilde
 

"Ela disse que dançaria comigo se eu lhe trouxesse rosas vermelhas", exclamou o jovem Estudante, "mas em todo o meu jardim não há nenhuma rosa vermelha."
Do seu ninho no alto da azinheira, o Rouxinol o ouviu, e olhou por entre as folhas, e ficou a pensar.
"Não há nenhuma rosa vermelha em todo o meu jardim!", exclamou ele, e seus lindos olhos encheram-se de lágrimas. "Ah, nossa felicidade depende de coisas tão pequenas! Já li tudo que escreveram os sábios, conheço todos os segredos da filosofia, e no entanto por falta de uma rosa vermelha minha vida infeliz."
"Finalmente, eis um que ama de verdade", disse o Rouxinol. "Noite após noite eu o tenho cantado, muito embora não o conhecesse: noite após noite tenho contado sua história para as estrelas, e eis que agora o vejo. Seus cabelos são escuros como a flor do jacinto, e seus lábios são vermelhos como a rosa de seu desejo; porém a paixão transformou-lhe o rosto em marfim pálido, e a cravou-lhe na fronte sua marca."

Oscar Wilde, O rouxinol e a rosa. (Leia o conto completo aqui.)

domingo, 18 de setembro de 2011

Meninos não choram

homem chorando

Eu pensei isso a minha vida toda. Meninos, homens, não choram. Meninas, mulheres, sim. Chorar é fraqueza, falta de força interior...

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Confiar em quem?

como-escrever-cronica

Hoje li uma coluna de jornal em que o autor considerava “Varsóvia” e outra palavra semelhante como proparoxítona. Um pequeno erro. Está bem, não foi um pequeno erro, principalmente porque a crônica era uma homenagem apaixonada às proparoxítonas. Citando até a construção de Chico Buarque em certa música, que flutua no ar como se fosse pássaro, escrita como se fosse a última e com os passos tímidos de um bêbado.

Apontando o erro, após ler o texto, a professora de português exclamou em forma de pergunta: “Vamos confiar em quem se nem nos cronistas conseguimos?”

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Poema #2

Cansado[1]

Um cigarro, ou pouco vinho,
Achar a mulher e nela o caminho
Para nessa aflição que ronda
Descarregar o caos sem resposta

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Perda

Acabou. Terminou de vez. Já se passava da meia-noite quando, após horas a fio de estudo improdutivo, tomei a decisão de dar um fim ao meu sofrimento. Após receber mais uma negativa para qualquer pequeno compromisso que seja, uma peça de teatro, um cineminha ao fim da semana, um petisco qualquer na esquina do supermercado.

Nada, todos negados.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Conversas

Alguns fragmentos de conversas geralmente são suficientes, autobiográficas ou não…

Parada

Sim, esse blog anda parado (paradoxo?!)

Viagem, férias, planejamentos de aula, tudo conspira – como sempre – contra o tempo livre para escrever.

Peço desculpas para os poucos leitores, mas com o tempo tudo volta.

Tem gente me devendo uma crônica há um mês já, até…

segunda-feira, 27 de junho de 2011

O poetinha – parte III (final)

*Parte III? Perdido? Leia a parte I e a parte II
...
“Desembucha, Chico. To ficando preocupado contigo.”

“Cara, não é nada...”

Estávamos apenas os dois, sentados na mureta do terreno baldio, atrás do Posto Sete. Já estava escuro, compramos um garrafão de vinho colono, do mais barato e suave. Chico jogara seu bloco de poesias fora, estava depressivo e mal saia de casa. Prometi a ele uma bebida e um baseado para levantar o espírito; era o único jeito de tirá-lo de casa. Ele tomava aquele vinagre como refrigerante, cada vez mais bêbado. Assim ficava mais fácil de descobrir o que acontecera.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

O poetinha – parte II

*Parte II? Que diabos?! Leia a primeira parte aqui

Érato, de Edward Poynter

Era um quente fim de tarde quando Chico entrou no ônibus. Mesmo com todas as janelas abertas, a sensação abafada era quase insuportável. Com cair do sol, um matiz brilhante viajando do cobre ao rosa pousava no horizonte, refrescando os olhos cansados de um dia quente de verão. Naquela época, ainda se entrava no ônibus pela porta traseira, você não via o rosto da pessoa que sentaria no seu lado para escolher a melhor companhia. O ônibus estava lotado, dando apenas uma opção de banco para Chico. Por sorte, no lado de uma mulher; e ela era linda... pelo menos de costas. Cabelos loiros com mechas que iam do amarelo-claro, quase branco, ao dourado do ouro velho, balançando com o vento da janela e refletindo a morte lenta do sol.

sábado, 18 de junho de 2011

O poetinha

Chico era um cara malandro. Destacava-se da trupe da rua por um atributo desejado por muitos e dominado por poucos: tinha a melhor conversa com as meninas. O primeiro a começar com namoricos, sapecadas e afins. Ele tinha olhos verdes graúdos, boca fina, cabelo encaracolado caindo na testa e orelhas, e um nariz helênico reto. Na verdade, em algumas rodas poderia até ser considerado bonito.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Sábado

Hoje é sábado
e você ainda não chegou.
Preciso de você aqui
para encher de paz a minha guerra.
Somente a tu presença
irá acabar com minha espera.

terça-feira, 7 de junho de 2011

violão-mulher

Naquela época eu morava com minha avó em uma ruazinha tranquila do Estreito. Aquele inverno gelado, que fazia do céu da ilha azul celeste e a tainha correr para o Rio… Ainda estava na faculdade, brincando de professor enquanto tentava escrever alguns contos ou crônicas. Os poucos que considerava de qualidade eram publicados no jornal da faculdade ou até, três vezes apenas, no Jornal de Santa Catarina. Na verdade, escrever sempre foi um sonho antigo, mas eu realmente não levava fé. O incrível, porém, foi descobrir que algumas pessoas realmente começaram a curtir o que eu escrevia, e, em homenagem a uma delas, que apareceu lá em casa no começo dos anos 80, talvez em 82, que vou contar essa história.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Gracias por el fuego

Mario Benedetti, Gracias por el fuego (1965)

- Para os norte-americanos a democracia é isso: deixar que em seu país todo mundo vote e passe o weekend lendo tiras humorísticas, deixar que todo mundo (menos os negros que estão em penitência ) se sinta que é cidadão, e por outro lado aproveitar o trabalho da chusma latino-americana. Para mim, ao contrário, a democracia é isto: escrever todos os dias um editorial de exemplar maturidade e correção política, e telefonar em seguida para o Chefe de Polícia para que de um arrocho em meus operariozinhos em greve. Eu não tenho dúvidas. Já que me coube nascer num país de merda, eu lhe correspondo. Eu o uso para mim, isso é tudo. Seu bisavô falava de Pátria, seu paizinho fala sobre Nacionalismo, você fala sobre Revolução. Eu falo de mim, garoto. Mas garanto que sei mais do meu tema que vocês do seu. Que somos colônia? Claro que sim. Afortunadamente. Mas, diga-me. Quem aqui quer ser independente? Vejamos essas bombinhas, por favor. Juro que não me assustam. Uma coisa eu te digo. É mais provável que um dia um operário que eu despeça ou insulte, porque gosto de insultá-los, vá ruminando até sua casa, rumine um pouco mais enquanto toma seu mate, então compre um revólver, volte até a fábrica e me dê um tiro; é mais provável que isso aconteça um dia e não que suceda algo tão descartável e tão insólito que seus esquerdistas de botequim se porem de acordo, armarem finalmente o quebra-cabeça de seus escrúpulos e suas tendências e decidam por uma bomba em meu Impala. Para matar um sujeito tem-se que acordar corno ou ter colhões ou estar bêbado. E vocês tomam coca-cola.

Mário Benedetti é muito conhecido por suas maravilhosas poesias - uma delas já postada aqui há muito tempo. Mas como minha paixão é pela prosa, não pude evitar de comprar Gracias por el fuego (1965), o terceiro romance do brilhante uruguaio. E sim, mesmo traduzido, o nome do livro continua em espanhol.

sábado, 4 de junho de 2011

Madrugada volte sempre

Olá! Depois de anos resolvi postar o meu segundo texto para o blog. Então aí vai algo que escrevi já há algum tempo, que trata sobre uma das minhas maiores paixões: a madrugada! Estou querendo transformar isto em música, vamos ver se vai dar certo. Então assim que ficar pronto irei postar aqui (se é que pode colocar música em blog, nem sei).

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Camelo

Num dia pesado e cansativo, resolvi faxinar a casa e baixar o novo CD do Marcelo Camelo, o "Toque Dela".

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Patético

É um martírio desumano. Como colocar uma enorme pedra sobre o peito de um pobre diabo. É extirpar a humanidade e o calor da vida de um homem. E cobri-lo com uma camada de fúria e asco de sua própria inabilidade.

sábado, 16 de abril de 2011

Garotos Incríveis

garotos-incriveis3

Perder a esposa, descobrir que a amante está grávida, receber seu editor desesperado pelo livro que você está escrevendo há cinco anos e ainda não tem fim previsto e ainda ter que cuidar de um aluno bizarro da sua aula na faculdade, tudo isso durante um evento com os melhores escritores do país.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Deu pra ti, anos 70!

anos-70

A biblioteca da Penitenciária gosta de me surpreender. Há algumas semanas, ajudando na catalogação dos livros, achei um livro velho, simples e com um título que eu não poderia ignorar: “Deu p’ra ti, anos 70”.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Revisão.

Ano novo é o tempo de promessas e renovação. Prometer que vai perder peso, renovar o IPVA, prometer que vai estudar, renovar o guarda-roupa; e assim por diante. E esse era o clima no apartamento de Márcia no último dia do ano. Ela fazia um resumo dos objetivos atingidos em doze meses, e do que precisaria rever, apoiada no parapeito da janela de alumínio, com o cigarro pendurado entre os dedos balzaquianos e a brasa aquecendo os dedos amarelados; cada tragada, um erro anual a ser refeito. O marido, se é assim que pode ser chamado aquele homem, estava deitado na cama, vendo televisão. Um belo começo de tarde. A louça na pia esperando ser lavada pelo homem e a mulher ruminando sua vida.

quinta-feira, 24 de março de 2011

Trilha sonora

Depois de uma longa noite de stress emocional à flor da pele, John foi viajar. Queria um pouco de ar, respirar outros ares ou quem sabe mesmo até ficar sem respirar. Pegou alguns pertences, o computador, juntou tudo na mochila e partiu em seu carro, rumo ao sul. O tempo não ajudava, as nuvens lá no céu ameaçavam engolir qualquer superfície seca em solo terrestre. Absorto em suas reflexões, com o vidro do carro fechado para evitar respingos da chuva que se armava a cada kilometro avançado em oposto boreal, John repensava as questões levantadas em sua última aula da graduação em Antropologia: vida e morte.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Feliz Ilha





 
Florianópolis faz aniversário hoje. Este post está atrasado três dias, mas veio a calhar.

domingo, 20 de março de 2011

Vacaciones

Isto deveria ser escrito em espanhol. As frases, diálogos e pensamentos deveriam possuir aquele certo acento porteño, que se arrasta para fora da boca, do castelhano argentino. Qualquer um, porém, que já se aventurou em terras desconhecidas, além do Oiapoque ou Chuí, já sentiu algo parecido. As descobertas que uma simples refeição pode fazer...

terça-feira, 15 de março de 2011

Pedido de Desculpas

Caro leitor do Pântano,

Mil desculpas pela ausência. Não posto desde o texto sobre a Apple, há quase um ano.
A explicação é simples: Me desencantei. Como tudo que um dia me cerca, chegou uma hora que deixou de ser um tesão. Não lembro quando foi. Eu nunca me apego eternamente.
Usava para escrever merdas, textos emotivos, carinhos para meu amigo Daniel. Hoje preciso de um conteúdo pensado para ele. É o que pretendo fazer, então. Meus próximos posts poderão falar sobre qualquer coisa, mas todos sobre ALGUMA coisa.

Voltem a acreditar em mim. Sou digna de ter um blog.

Pé na Estrada

on-the-road-walter-salles

Aproveitando a notícia das fotos do longa On the Road de Walter Salles, baseado no livro homônimo de Jack Kerouac, três trechos do magnífico romance.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Dica do mês

                                 david lodgeschopenhauer

Dica quente para quem gosta de escrever e ler. A editora L&PM, que tem os melhores livros de bolso do mercado, possui no catálogo dois livros excelentes sobre a arte de escrever.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Toque uma música pra gente…

Nada pior que ser forçado a tocar quando você está cansado e passou do ponto. Nessas horas tento me manter longe dos holofotes famintos dos outros bêbados; se você rejeitar o pedido, principalmente quando se está envolto por desconhecidos, todos o olham com desprezo. Não sou um trovador, muito menos estou aqui para entreter vocês, busco meu próprio êxtase, meu clímax, longe de desconhecidos, que buscam uma única dose de prazer momentâneo nas nossas companhias passageiras. Amanhã nunca mais a verei; daqui a duas horas, ele partirá; de agora em diante, nos veremos ocasionalmente nos corredores e sentiremos um dever obscuro e fútil de dizer “olá”. Pífio, sem significado, desnecessário.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Palácio–partes III, IV, V e VI(final)

Continuação do conto Palácio. Está perdido? Parte I e parte II

Vera Lucia nunca entrara em um puteiro antes. Era acostumada com os que apareciam em enlatados norte-americanos. Deparou-se com um bar quase normal. Quase, se não existisse um palco com uma mulher seminua dançando e algumas garçonetes de lingerie e peitos à mostra. Provavelmente a putaria de verdade que esperava não começara devido à hora. Ainda era cedo, o Palácio parecia mais um lugar cult, onde poucos universitários tomariam alguma bebida discutindo alguma banalidade acadêmica. Um armário negro, usando um paletó gasto e fora de moda se colocou à sua frente.

Palácio saindo do forno…

Estou corrigindo as últimas partes do texto para postar ainda hoje. Queria agradecer ao pessoal que comentou o texto aqui ou no twitter (@leocavia, @CarolMSalles e Capitu). Saber que alguém leu as primeiras partes me fez levar a coisa um pouco mais a sério.

Também agradecer a Mari que me incentivou a continuar.

Ah, e um muito obrigado especial para Vera Lucia e Caio. Sem vocês esse conto não existiria.

Fui!

domingo, 9 de janeiro de 2011

Palácio – II

Continuação do conto baseado em causos reais Palácio. Não leu? Clique aqui.

***

Uma semana depois do telefonema, Caio avisou que sairia novamente com os amigos.

“Onde vocês vão?” O rosto quase realmente ingênuo de dona de casa brilhava na sala em frente à televisão.

“Na casa do Rodrigo. Beber, fumar uns charutos, falar bobagem...” Enquanto falava, Caio tirava as chaves do carro de cima da mesa e caminhava para a sala. Se despediram com um beijo rápido. Vera acompanhou com o rabo dos olhos o fechar da porta, levantou-se, caminhou até o armário de bebidas e arrancou uma garrafa de gin. Essa noite precisará de gin.

Suficientemente amortecida, ela checou o quarto da filha. Dormia como um mimado querubim bizantino. Recolheu as chaves de seu carro e desceu. Suava frio, sentia sua barriga dando voltas. Entrou no carro e engatou a primeira em seu plano.

A noite estava fresca e tranquila, com uma lua cheia digna de um jazz outonal em Paris. O carro de Vera passeava tranquilamente pelas ruas estreitas da cidade, planando pelo asfalto. A primeira parte do plano era checar a casa de Rodrigo. Mesmo que ele fosse ao tal Palácio - como ele iria, Vera tinha certeza - Caio realmente passaria antes na casa do amigo. Com uma lenta passada com seu carro identificou o automóvel de Caio estacionado. Um importado com a sugestiva, e irônica, placa MEU.... era facílimo de reconhecer. Vera ainda tinha tempo.

Vera encostou seu carro algumas quadras depois. Vale mesmo a pena fazer isso? E se não der certo? E... se der certo? As dúvidas se afugentaram quando lembrou que ele passaria a noite com meretrizes... Não, meretrizes não, nome pouco vulgar para quem se metia (ou era metida) com seu marido, eram putas, biscates, pistoleiras. O jazz que tocava naquela lua ia se transformando em um bop cada vez mais rápido. Lúcia olhou-se no retrovisor, viu a profundidade felina de seus olhos pintados, o olhar venenoso de uma mulher irada, engatou a marcha e dirigiu sem pestanejar até o Palácio.

A fachada do bordel não disfarçava seu real intento. Entrar ali achando que se tratava de um bar normal era impossível. A porta dupla, com películas negras que impediam visualizar o interior e um diminuto toldo bordô imitando os hotéis nova-iorquinos, os neons rosas, vermelhos, brancos e azuis que desenhavam e piscavam torres de um palácio árabe, o cartaz com uma advertência contra menores de dezoito anos. Era realmente uma zona. Vera Lúcia estacionou seu enorme carro alguns metros antes de chegar ao inferninho. Caminhou etilicamente confiante até a porta negra e entrou.

***

Paro aqui para continuar semana que vem. Folhetim que se preze acaba em situações chave. Mastigarei o final por mais um tempo.

Continua...

Cem posts… sem nada…

100

Pois bem, pois bem...

Essa é a postagem de número 100! Olha só que beleza. Cem posts, sem conteúdo, sem participação ativa, em pouco mais de dois anos de blog. Pois é, a primeira postagem foi no dia 09/10/2008.

Só para marcar esse número ‘incrível’, alcançado depois de muito tempo, livros, amores, decepções, porres e papo furado.

Prometo, como sempre, postar mais, mesmo que pouquíssima gente leia ou participe dessa aventura pseudoliterária. Faço isso mais pelo meu ego e diversão do que pelos outros. Claro que um comentário ou outro, mesmo que seja um (y) ou (n), é sempre bem vindo.

Obrigado visitantes, boa leitura, ou fuga. Acendam um cigarro, tomem um gole, ou simplesmente leiam.

PS: Quer brincar de escrever e postar alguma coisa? Entre ali em Contato e mande um e-mail. A gente se acerta.