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quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Flâneur

Minha professora de Estética e Cultura de Massa pediu uma tarefa bem conceitual. Um flâneur. Com o meu máximo de experiência estética baseado na agenda do Salvador Dalí, fui desafiada a escrever uma crônica no estilo do O homem na multidão de Allan Poe em menos de uma semana. Para os desavisados, o texto é a descrição de um personagem no qual o autor seguiu. E a tarefa é essa: seguir alguém.

A professora, quase sóbria, disse que devemos caminhar com a cabeça em extrema concentração, sem pensar nos trabalhos acadêmicos, na conta do banco ou em sexo. Devemos observar cada detalhe, gesto, palavra sem que a pessoa nos veja, anotando os ambientes e imaginando a vida alheia. Em seqüência, deveríamos escrever uma crônica.

Descobri o paradoxo! Como fazer isso sem pensar que tenho que fazê-lo. Se a professora quer o sublime do ócio, não deveria pedir a perseguição como um trabalho acadêmico. Andei atrás de três caras, matei aula de redação, mas não consegui fazer sem pensar no trabalhinho como sendo com data marcada. Anotei ruas, cores, nomes, encarei várias vezes as vítimas. Não escrevi a crônica, mas hoje tenho minha última chance. Amanhã posto aqui.

Enquete

Pronto, fiz uma enquete para saber se mudamos o nome...

Só digo que o resultado da votação não influenciará na minha decisão.
Vai estar aberta para votação até a meia noite do dia 19/10/09.

Aproveitem!

Abracetas,
a Direção.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Manifesto.

Incrível como o poder é cara-de-pau. Eu e o Léo somos dois terços e nem sequer fazemos parte do título Pantano do Troll!
Fico com vergonha de divulgar o blog, já que não sou proprietária dos meus bens de produção e escrevo textos sentimentais (quase idiotas), onde o capital simbólico é propriedade do nome que governa o blog. Ele que contrata e demite produtores sem questionamento democrático. Sim, Léo, temos que fugir da alienação da nossa classe escritora e produzir pra si, abraçando a campanha "Pantando do Troll também é nosso" com um nome que representa os três. A Revolução começa quando descobrir como mecher nessa merda e montar uma enquete pro universo que a lê : minha mãe, dois bocós, eu, kaxopa e léo. Falta mais alguém pra fazer melhor de sete e decidir o novo nome.

Prefiro não argumentar com relação à frequencia com que posto, porque aí fudeu.

Ei, você mesmo!

A parte feminina do blog, quase sempre, claro, está em greve. Não daqui, mas da vida. Quem me conhece sabe que faço coisas e reclamo na mesma intensidade que as executo. Mas ninguém me conhece como o homeageado(a). E não vou dizer o nome, quero dar a chance de ele(a) se descobrir no texto.

Bom, pela segunda vez um texto direcionado e, para os curiosos de plantão, o primeiro foi o “Sem título para ele” em abril. Depois do Pedro, meu grande amigo do colégio, poucas foram as pessoas que guardei. Como diria o poeta Pedro Bial “entenda que amigos vem e vão, mas nunca abra mão de uns poucos e bons”e, por mais brega que seja, é verdade. Porém, nada como redimir-se com a parte dos poucos e bons, preenchida quase integralmente pela Thata, que sempre o fez com muita competência e lembrada por aqui.

O problema (ou não) é que preciso de um homem-amigo. Voltando a falar de mim, e agora todos já sabem que sou particularmente egocêntrica (não egoísta, ok), tenho um lado muito homem. Sem explicar essa parte, que mesmo máscula é charmosa, eu a escondo a sete chaves, só mostrando em horas de extrema carência com todo um contexto envolvente, mais uma série de circunstâncias, mais uma série de nhenhenhês.

Não é pra ficar com medo. Duas cabeças acabaram me fuçando por completo e, pode acreditar, continuam me amando, acho. Uma delas é a que eu não posso pronunciar, senão o charme do texto (que quase não existe) vai sumir. Essa minha parte cruel foi aberta, pra não usar a palavra “esgaçada”, com pequenos papos, que logo viraram médios e, em sequência, longos, na sacada, ou com vinho, ou com cerveja, ou com cigarro, ou com os três.

Nem sempre na sacada, esses momentos aconteciam em qualquer chão entre os bairros trindade, pantanal, serrinha, carvoeira e córrego. Se quiser saber onde era o nosso esconderijo, vá até a maior concentração de filtros de cigarro no chão e, pronto!, descobriu nosso lugarzinho. A distância me fez parar de fumar, além do meu pulmão gritando “meu deus, me ajuda” e da falta de dinheiro, claro, que é quase sempre o que faz o ser humano mudar. E eu não estou generalizando.

Sinto é muita falta de me irritar com alguém invadindo a minha mania de independência. Aquele ronco noturno que me acordava, mesmo eu colocando o colchão no quarto ao lado, sim, até daquele barulho péssimo eu sinto falta. O fato é que amizades vem e vão, mas o meu tempo é curto. E, como sou egocêntrica, e óbvio, eu contei isso por algum motivo, eu prefiro guardar os meus segundinhos livres ou para sexo, ou para necessidades fisiológicas, ou para escrever nisso aqui. Nunca os três ao mesmo tempo, claro.

Tenho que dizer que todos os filmes, todas as músicas, todos os cigarros foram fodas com ele(a). As voltas de carro, os tchauzinhos no vidro, os carinhos inesperados, os choros de bêbada, os tapas, as grosserias, os churrascos, os vinhos, os roncos, as risadas, os R.U.s, os bafões que não eram seus, os bafões que não eram meus, as dicas de redação, as conversas de 5 min, as conversas de 3 horas, os bares, a cantina, as briguinhas de ex, as briguinhas de atuais, os segredos, os abraços, os cafés de manhã. A nossa amizade. Tudo isso e, especialmente o último tópico que agrupa o todo, é indiscutivelmente adorável. E, especialmente esse último tópico, guardo no coração. Como ele(a) sabe, meu coração muitas vezes é de pedra, mas hoje e sempre, por ele(a), é um coração que ama o seu amigo.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

The Bucket List

Dois homens com câncer terminal decidem viajar pelo mundo juntos, realizando os últimos desejos de suas vidas. Dirigido por Rob Reiner (Questão de Honra) e com Jack Nicholson, Morgan Freeman e Sean Hayes no elenco.

As luzes da cidade passam rápido pela minha janela enquanto dirijo em velocidade moderada meu carro novo: um Toyota Fielder automático, adquirido no mês passado. Estou chegando de mais um dia de trabalho produtivo como diretor-geral de uma grande companhia especializada em TI com sede no Vale do Silíco, na Califórnia. No meu iPhone, havia algumas mensagens de textos ainda não lidas de uma linda mulher que beijei no feriado passado, em uma festa particular pela Baía Norte no iate de alguns clientes da empresa.

Na esquina do prédio onde moro, na Avenida Jornalista Rubens de Arruda Ramos, passo por algumas garotas de não mais que vinte anos de idade, elas me parecem como modelos indo desfilar na boate que fica ao lado do meu prédio, com a mesma melancolia no olhar disfarçado pelas maquiagens caras e o branqueamento nos dentes. As garotas reparam em mim, ou no meu carro, ou em ambos; não me importo.

Na entrada da garagem, meu iPhone acende e interrompe a música da banda Diablo Swing Orchestra que tocava em alto volume no sistema de som potente. Eu atendo com o Bluetooth da Fielder: era um rapaz que estava também no passeio de iate, me convidando para um camarote na boate ao lado, de onde saem garotos bêbados às três da manhã que empesteiam o jardim externo do meu prédio urinando sem o menor pudor – Não, obrigado. Já disse em alguma reunião de condomínio que deveríamos tirar fotos noturnas dos nossos mais frequentes “mijadores” e expô-las numa exposição pública em frente à boate; cacife pra isso nós temos.

Passo ao elevador, o porteiro me cumprimenta ao longe, respondo com um leve movimento de cabeça. Pressiono o botão de número 12, sou o único morador do condomínio que vai até este andar. O elevador se abre e o corredor já faz parte do meu apartamento, com peças da última exposição Casanova – elas estão a cada ano mais medíocres – penso ao destrancar a porta dupla do apartamento. Lá de cima, pelo uso excessivo de vidros constantemente limpos em razão da maresia do mar a frente, consigo observar praticamente todo o bairro. No meu nível eu conto apenas mais um ou dois apartamentos de prédios à direita.

Sincronizo meu iPhone ao sistema de som do apartamento, rapidamente todo o aambiente se enche com “Memoirs of a Roadkill”, da mesma banda que escutava ao ser interrompido pelo interesseiro. Acabo de abrir a garrafa do whisky 20 anos que eu ganhei ao ser promovido na empresa. Nunca gostei desses destilados, mas esta noite é especial.

Desde criança tracei planos para meu futuro, quando li a história de Paulo Coelho, que já aos 7 anos o prodígio projetava meios de “como ser o melhor escritor do mundo”, identifiquei-me prontamente. Na minha lista o último item sempre foi: Morte. O checklist já estava completo, só sobrara a derradeira. Portanto, nada mais natural que, em toda uma vida baseada em planejamento e execução, eu atinga mais essa meta. Isso mesmo, meta: morrer.

Ah, o vento no rosto, esse cheiro de maresia de que sempre gostei, o céu é realmente maravilhoso aqui de cima. O copo do destilado já está no fim, lá embaixo eu vejo pessoas basicamente uniformizadas entrando na fábrica das fantasias – será que eles não cansam de realizar a mesma tarefa mecânica de todos os dias?

Caio.

Ao menos essa noite não haverá aqueles mijões no jardim do prédio.