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sábado, 23 de junho de 2012

Jesus e o Careca

carvoeira-florianpopolisUm dos problemas de ter um relacionamento amoroso estável e longo - estável no sentido de sem traições e longo no sentido de mais de um ano de existência – é que você começa a viver das histórias de putaria dos amigos. A putaria do casal ainda existe, claro, mas aquela velha e boa putaria diversificada em parceiros, aquelas trepadas casuais, e bizarrices que decorrem, não acontecem mais com os ajuntados. Assim, depende-se dos amigos e suas histórias. Não estou dizendo que estar em um relacionamento é ruim, ele tem as suas vantagens, as quais só se conhece estando em um. Recapitulando, hoje não faço putarias, mas escuto as histórias de meus amigos. Essa que contarei é real, apenas os nomes serão trocados e aumentos desenvolvidos, mas tudo aconteceu na região mais prolífica para esse tipo de história: os arredores da Universidade.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Good Times

toca-discosCalça jeans – “farwest” como ele dizia – boca de sino, botina de couro, camisa de estampas coloridas e aberta até o quarto botão, fivela gigantesca de níquel já fosco pelo suor, colete, cabelo cobrindo os ombros, costeletas – verdadeiras suíças – e um cigarro de filtro amarelo pendurado entre os dedos. Sentado à escrivaninha, a fumaça saindo pelas narinas, escrevendo algo em uma velha máquina de escrever. Os pés batendo junto com o groove vindo do velho toca-discos. Tudo embalado em um marmanjo de 24 anos.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Serrana – Parte III (Fim)

(parte Iparte II)

serrana2

O sargento Rubião planejou como conseguiria a arma, e então João Pardal daria um fim naquele diabo que desvirginara sua filha. Com dois homens seus, cujos nomes foram perdidos na história, Rubião Petrosky matara um assassino qualquer – cujo nome também foi perdido -, que atirara em outro depois de uma desavença decorrente de apostas em jogos de cartas, e incriminou Novembrino. Os três policiais prenderam o pistoleiro e como presente, roubaram-lhe o revólver de prata. Novembrino foi mandado à Capital, onde cumpriria dez anos pelo crime que não cometera. Rubião levou o pagamento a João Pardal que, alegremente, inaugurou seu novo revólver com o marido infiel.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Serrana – Parte II

(parte I)

Revólver Smith & Wesson de prataEm um bolicho, o sargento Rubião, com seu vasto bigode negro como carvão, uniforme cáqui e cabelo à escovinha, sentou-se a mesa com João Pardal.

“Boa tarde.” Disse o sargento com a voz mais séria possível. João levantou os olhos por baixo do chapéu e meneou a cabeça.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Serrana – parte I

Serra-Catarinense

Existem histórias perdidas no coração de Santa Catarina que, se contadas, pessoas achariam que eram do começo do século XX, ou de outra parte do Brasil. Histórias como estas, são comuns até hoje, nesse pequeno e mal cuidado estado do Sul, mesmo que a que contarei aconteceu há mais de trinta anos.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Da Lata

Maconha da lata

Hoje, em meio a cervejas e conversas nostálgicas, um amigo gaúcho falou:

“Cara, tenho várias decepções na minha vida... No futebol, por exemplo, é que nunca vi o Zico jogar ao vivo, mas quando o assunto é festejar... Nunca me perdoo por não ter fumado da lata...”

Sorri e falei, com a cara de gato que acabou de comer o periquito da família:

“É, valia a pena...”

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

O celular perdido (parte II)

parte I

vi

A casa Dela, porque não peguei seu nome – sempre quero acabar a conversa pelo telefone o mais rápido possível e acabo esquecendo de perguntar coisas básicas -, era na metade do caminho do ônibus. Como o ônibus faz mais voltas que um navio navegando contra o vento, de carro o caminho seria infinitamente mais rápido. E eu tenho um carro. Velho. E problemático. Mais de dez anos de estrada, popular, com certo vazamento, faróis temperamentais que gostavam de parar de funcionar – deixando-me somente com o farolete, ou com sorte, o farol alto – e o baixo orçamento para combustíveis fósseis, faziam do vale-transporte a opção mais viável. Mas para uma viagem breve, o Ventania, sim, esse é o nome do meu carro, seria ótimo. Tão ótimo quanto botar um ponto final naquela história. Peguei a chave, montei no Ventania e rumei até a casa Dela.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

O celular perdido

celular

Pegar o ônibus depois das nove da noite, sozinho, sem o fone de ouvido do celular para escutar uma música nunca é bom. Você está cansado de trabalhar e, ou, estudar o dia inteiro e ainda tem que enfrentar o caos do coletivo viário de Florianópolis. Então você senta, fica olhando pela janela o comércio fechado, travestis chegando ao ponto e cachorros passeando, ou dá aquela olhadela quase discreta para as pessoas também entediadas no ônibus.

E era assim que eu estava. Sentado sozinho, olhando pela janela, sonhando alto com o que fazer na quinta-feira. Quando resolvi dar a olhadela semidiscreta para o banco ao lado, vi ela. Sim, ela. Gosto de escrever assim “então vi ela”, não “a vi” ou “vi tal-mulher-fazendo-tal-coisa” porque assim existe um ar clichê, misturado com dar uma pausa para eu pensar e descobrir como vou escrever a próxima frase. Mas vi ela. Pensando bem, “vi ela” é meio cacofônico. Então eu a vi. Isso, melhor.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

O caso (parte III-Fim)

(parte I e parte II)

cinzeiro

Todos poderiam passar batidos pelo pequeno caso que rolava. Mas, como sempre, eles foram ficando desleixados, preocupando-se menos com os amigos e começaram a fazer tudo em publico. Mas juravam que era apenas uma vez por semana. Só para aliviar a tensão, sabe como é? Seguravam-se para não fazer mais de uma vez, porque era gostoso, aliviava muito a semana. E o papo era ótimo.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

O caso (parte II)

(parte I)

vinho2

Continuavam toda semana a se ver, trocar aquela conversa gostosa de novidades e conquistas semanais, tomando uma garrafa de vinho, ou umas garrafas, mas continuavam se vendo. E a amizade continuava forte e longe de desejos sexuais e dramas que poderiam prejudicá-los.

Até uma noite, na terceira garrafa de vinho.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

O caso (parte I)

homem-mulher-fumando

Os dois se conheciam há anos. Na verdade, desde o ensino fundamental. Chegou o ensino médio, foram estudar na mesma escola; chegou a faculdade, ai tiveram de se separar. Mas apenas no curso, o campus era o mesmo, então sempre tomavam um cafezinho juntos. Conversa vai, conversa vem, acabavam se atrasando para a próxima aula, ou, pior, para o encontro com seus amantes.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

O poetinha – parte III (final)

*Parte III? Perdido? Leia a parte I e a parte II
...
“Desembucha, Chico. To ficando preocupado contigo.”

“Cara, não é nada...”

Estávamos apenas os dois, sentados na mureta do terreno baldio, atrás do Posto Sete. Já estava escuro, compramos um garrafão de vinho colono, do mais barato e suave. Chico jogara seu bloco de poesias fora, estava depressivo e mal saia de casa. Prometi a ele uma bebida e um baseado para levantar o espírito; era o único jeito de tirá-lo de casa. Ele tomava aquele vinagre como refrigerante, cada vez mais bêbado. Assim ficava mais fácil de descobrir o que acontecera.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

O poetinha – parte II

*Parte II? Que diabos?! Leia a primeira parte aqui

Érato, de Edward Poynter

Era um quente fim de tarde quando Chico entrou no ônibus. Mesmo com todas as janelas abertas, a sensação abafada era quase insuportável. Com cair do sol, um matiz brilhante viajando do cobre ao rosa pousava no horizonte, refrescando os olhos cansados de um dia quente de verão. Naquela época, ainda se entrava no ônibus pela porta traseira, você não via o rosto da pessoa que sentaria no seu lado para escolher a melhor companhia. O ônibus estava lotado, dando apenas uma opção de banco para Chico. Por sorte, no lado de uma mulher; e ela era linda... pelo menos de costas. Cabelos loiros com mechas que iam do amarelo-claro, quase branco, ao dourado do ouro velho, balançando com o vento da janela e refletindo a morte lenta do sol.

sábado, 18 de junho de 2011

O poetinha

Chico era um cara malandro. Destacava-se da trupe da rua por um atributo desejado por muitos e dominado por poucos: tinha a melhor conversa com as meninas. O primeiro a começar com namoricos, sapecadas e afins. Ele tinha olhos verdes graúdos, boca fina, cabelo encaracolado caindo na testa e orelhas, e um nariz helênico reto. Na verdade, em algumas rodas poderia até ser considerado bonito.

terça-feira, 7 de junho de 2011

violão-mulher

Naquela época eu morava com minha avó em uma ruazinha tranquila do Estreito. Aquele inverno gelado, que fazia do céu da ilha azul celeste e a tainha correr para o Rio… Ainda estava na faculdade, brincando de professor enquanto tentava escrever alguns contos ou crônicas. Os poucos que considerava de qualidade eram publicados no jornal da faculdade ou até, três vezes apenas, no Jornal de Santa Catarina. Na verdade, escrever sempre foi um sonho antigo, mas eu realmente não levava fé. O incrível, porém, foi descobrir que algumas pessoas realmente começaram a curtir o que eu escrevia, e, em homenagem a uma delas, que apareceu lá em casa no começo dos anos 80, talvez em 82, que vou contar essa história.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Palácio–partes III, IV, V e VI(final)

Continuação do conto Palácio. Está perdido? Parte I e parte II

Vera Lucia nunca entrara em um puteiro antes. Era acostumada com os que apareciam em enlatados norte-americanos. Deparou-se com um bar quase normal. Quase, se não existisse um palco com uma mulher seminua dançando e algumas garçonetes de lingerie e peitos à mostra. Provavelmente a putaria de verdade que esperava não começara devido à hora. Ainda era cedo, o Palácio parecia mais um lugar cult, onde poucos universitários tomariam alguma bebida discutindo alguma banalidade acadêmica. Um armário negro, usando um paletó gasto e fora de moda se colocou à sua frente.

domingo, 9 de janeiro de 2011

Palácio – II

Continuação do conto baseado em causos reais Palácio. Não leu? Clique aqui.

***

Uma semana depois do telefonema, Caio avisou que sairia novamente com os amigos.

“Onde vocês vão?” O rosto quase realmente ingênuo de dona de casa brilhava na sala em frente à televisão.

“Na casa do Rodrigo. Beber, fumar uns charutos, falar bobagem...” Enquanto falava, Caio tirava as chaves do carro de cima da mesa e caminhava para a sala. Se despediram com um beijo rápido. Vera acompanhou com o rabo dos olhos o fechar da porta, levantou-se, caminhou até o armário de bebidas e arrancou uma garrafa de gin. Essa noite precisará de gin.

Suficientemente amortecida, ela checou o quarto da filha. Dormia como um mimado querubim bizantino. Recolheu as chaves de seu carro e desceu. Suava frio, sentia sua barriga dando voltas. Entrou no carro e engatou a primeira em seu plano.

A noite estava fresca e tranquila, com uma lua cheia digna de um jazz outonal em Paris. O carro de Vera passeava tranquilamente pelas ruas estreitas da cidade, planando pelo asfalto. A primeira parte do plano era checar a casa de Rodrigo. Mesmo que ele fosse ao tal Palácio - como ele iria, Vera tinha certeza - Caio realmente passaria antes na casa do amigo. Com uma lenta passada com seu carro identificou o automóvel de Caio estacionado. Um importado com a sugestiva, e irônica, placa MEU.... era facílimo de reconhecer. Vera ainda tinha tempo.

Vera encostou seu carro algumas quadras depois. Vale mesmo a pena fazer isso? E se não der certo? E... se der certo? As dúvidas se afugentaram quando lembrou que ele passaria a noite com meretrizes... Não, meretrizes não, nome pouco vulgar para quem se metia (ou era metida) com seu marido, eram putas, biscates, pistoleiras. O jazz que tocava naquela lua ia se transformando em um bop cada vez mais rápido. Lúcia olhou-se no retrovisor, viu a profundidade felina de seus olhos pintados, o olhar venenoso de uma mulher irada, engatou a marcha e dirigiu sem pestanejar até o Palácio.

A fachada do bordel não disfarçava seu real intento. Entrar ali achando que se tratava de um bar normal era impossível. A porta dupla, com películas negras que impediam visualizar o interior e um diminuto toldo bordô imitando os hotéis nova-iorquinos, os neons rosas, vermelhos, brancos e azuis que desenhavam e piscavam torres de um palácio árabe, o cartaz com uma advertência contra menores de dezoito anos. Era realmente uma zona. Vera Lúcia estacionou seu enorme carro alguns metros antes de chegar ao inferninho. Caminhou etilicamente confiante até a porta negra e entrou.

***

Paro aqui para continuar semana que vem. Folhetim que se preze acaba em situações chave. Mastigarei o final por mais um tempo.

Continua...

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Palácio

“Seu marido está aprontando.” A voz do outro lado da linha era estranhamente familiar, a notícia dada era direta, nem tempo para um alô.

“O que?” Ela nem teve tempo para pensar no que ouvira.

“Está no Palácio.” Mal acabara de falar e desligou o telefone.