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quarta-feira, 22 de junho de 2011

O poetinha – parte II

*Parte II? Que diabos?! Leia a primeira parte aqui

Érato, de Edward Poynter

Era um quente fim de tarde quando Chico entrou no ônibus. Mesmo com todas as janelas abertas, a sensação abafada era quase insuportável. Com cair do sol, um matiz brilhante viajando do cobre ao rosa pousava no horizonte, refrescando os olhos cansados de um dia quente de verão. Naquela época, ainda se entrava no ônibus pela porta traseira, você não via o rosto da pessoa que sentaria no seu lado para escolher a melhor companhia. O ônibus estava lotado, dando apenas uma opção de banco para Chico. Por sorte, no lado de uma mulher; e ela era linda... pelo menos de costas. Cabelos loiros com mechas que iam do amarelo-claro, quase branco, ao dourado do ouro velho, balançando com o vento da janela e refletindo a morte lenta do sol.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Olhos

Tenho um sentimento não patriótico quando falamos de mulher. A preferência nacional, não é segredo, são as bundas, as divinas bundas tupiniquins. Como todo brasileiro, não nego, reverencio as ancas nacionais, belas formas esculpidas pelos flertes europeu-africanos em quinhentos anos de convivência. Mas a primeira coisa que admiro nessas elegantes criaturas são os olhos. Lindos olhos, azuis, verdes, mel, castanhos, com seus raios únicos de cores amareladas ou escuras, dando vida à monótona monocroma pupilar.

Ainda lembro-me dos olhos de muitas, que há muito não vejo. Os olhos verde-água perdidos em outra cidade, que me exigiam paciência, mas recompensavam com uma das maiores amizades que já tive. Os que sentavam à minha frente no terceiro ano; azuis-claros lindos, perfeitos, como uma lagoa em dia de calmaria. Pouco me importava a dona, nada tínhamos em comum, pero seus olhos traziam uma sensação diferente de beleza, gravada em minha memória. Outra tem olhos negros, que parecem tentar camuflar o ímpeto que está escondido por dentro numa doçura magnífica, fazendo com que eu não consiga parar de fitá-los.

A primeira vez que não me senti sozinho nessa fixação foi ao ler Dom Casmurro. Os famosos olhos de ressaca de Capitu, olhar que “trazia não sei que fluído misterioso e energético, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca.” Esses orbes malditos que me prendem num estranho êxtase, num fascínio perigoso. Amo-os, mas os odeio. A parte mais bela da face feminina, por vezes a única, criados por Deus, corrompidos pelo Diabo e muita vez mais perigosos que suas bocas. Janelas embriagantes da alma, oásis perdidos ou miragens, os divinos olhos tupiniquins.