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quarta-feira, 15 de julho de 2009

Silêncio

Alguns diálogos bastam para explicar alguma situação. Quando a gente é surpreendido, não por falta de aviso, mas por confiança, não se tem muito o que dizer. Na maioria das vezes o silêncio combina mais que o dialogo. Alguém sempre se machuca com palavras. Mas nunca pensamos antes, as flechas são disparadas antes do sinal. E quando acertam, machucam feio. O coração é o de menos, quando acertam o ego é pior.


“Limpa esse veneno da tua boca, não combina com você.”

“Não precisa falar assim.”

“Era isso?”

Silêncio.

“Então, tchau.”

“Espera, volta aqui.”

Silêncio.


Algumas ações também bastam para explicar uma situação. Um beijo no rosto quando se espera uma boca. Um aperto de mão, um abraço, um adeus. Machucam tanto quanto palavras, porém são mais desconfortáveis que o silêncio. Um tapa, um soco, um olhar, uma tragada, seguir adiante. Tudo se resume a ações, diálogos, silêncio. Não nessa ordem, talvez.


“Adeus.”

terça-feira, 14 de julho de 2009

Manual de Instruções

Todos que se aventuram por caminhos tortuosos e imprevisíveis precisamos de alguns itens essenciais. Um deles é o estepe. Mas como qualquer item de emergência, é preciso saber usá-lo, com todos os devidos cuidados para que ele não te deixe mais na mão (use o sentido mais literal possível) do que você já está.

Um bom estepe tem data de validade. Você precisa sempre conferir o estado dele para ver se ainda tem as características que você precisa. Se passar a validade, não tenha medo de trocá-lo, mas escolha sempre um bom, estepes de má qualidade são comuns e geralmente não funcionam bem, emperram, acham que são originais de fábrica e você só se incomoda.

Outra coisa, sempre calibre o estepe a cada trimestre. Abandoná-lo no porta-malas a escuridão o faz murchar, sem interesse em te ajudar. Manutenção sempre é importante, é o segredo de qualquer mecanismo de emergência.

No geral, você precisa cuidar do seu estepe, mas sem esquecer qual o lugar e função dele, para não complicar as coisas. Revezamento de pneus nunca dá muito certo, mais vale comprar dois carros.

Próximo capítulo, manual de instruções da carta curinga.

***

Carta Curinga, aquela que você guarda para o momento certo. Você sabe que ela tem todas as vantagens das outras cartas, que pode ser um As, um rei, ou um 4. Pode estar sempre disposta a trabalhar. Ajudar nas jogadas com outras cartas, e todos os jogadores querem ter uma. Deve-se ter muito cuidado para não permanecer muito tempo com uma carta curinga, porque apesar das mil e uma utilidades, você pode acabar só com ela na mão. Então, na hora certa, pense estratégicamente no jogo, afinal, mais vale um passarinho na mão do que dois voando, e é hora de usá-la. Mas cuidado, se não souber pensar bem com o Joker, ele pode acabar com o seu jogo. Guardar bem as cartas pode criar uma necessidade de sempre tê-las em mãos, mas nem sempre elas continuarão por ali. FIKDIK.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Minha vez

Está na hora do elemento masculino do blog postar sobre futebol. O que melhor que a final da Copa das Confederações?

Os investidores do soccer norte-americano estavam esperando essa hora desde a Copa de 94, quando investiram milhões para popularizar a bola redonda na terra do Tio Sam. Nem Beckham ou Pelé conseguiram empurrar os destemidos yankees para frente no futebol jogado com os pés, somente um título semi-importante como esse poderia realizar o feito. Com a zebra magnífica, desclassificado a favorita Espanha, Hollywood se interessou na história, mobilizando milhões de dólares para uma super promoção de cinema contando a incrível história de um time pequeno que, com raça e determinação dos seus antepassados peregrinos, bateu as melhores seleções do mundo chegando a final e, as God as our witness, chegaria ao título em uma batalha digna de Davi e Golias, é claro que estamos de US and A!

Dito e feito, os yankees ficaram motivados, ainda mais depois das tentadoras ofertas hollywoodianas. O técnico Bob Bradley seria interpretado por, obviamente, Tom Hanks; o atacante Altidore pelo genial Michael Clarke Duncan (À Espera de um Milagre); o craque do time, Landon Donovan por Christian Bale (Batman Beggins). Rumores diziam que Will Smith faria uma participação especial como Barack Obama mandando uma mensagem de “Yes we can!” para os jogadores no vestiário. O time americano veio para cima e, com o espírito Rocky Balboa de superação, abriram o marcador no primeiro tempo. Será que finalmente os EUA teriam sua grande chance no footsoccer? Nem mesmo Zina (“Ronaldo! Brilha muito no Cúrintia”) previa esse resultado.

Mas ai acabou o primeiro tempo. O repórter Mauro Naves confessou nos microfones da Rede Globo sua preocupação com a saúde física do técnico Dunga, “A veia do pescoço dele está mais saltada que o normal”. Nos vestiário o comandante brasileiro mostrou porque era o capitão do tetra. Com uma mijada soberba, gritos na orelha do canela-fina Ramirez e um chimarrão feito com carinho por Paulo Paixão, Dunga motivou o time. O Brasil voltou para o segundo tempo ainda pingando, mas inspirado.

Contentes com a vantagem, os norte-americanos voltaram tranqüilos ao campo. Mas não contavam com a nossa astúcia; Luis Fabiano mostra o poder de reação que só um ex-malaco encrenqueiro pode ter e marca dois gols empatando a partida. Parecia que o jogo ia para a prorrogação, os trinta minutos mais agonizantes do mundo esportivo, mas ainda existia um outro guerreiro em campo. Da zaga surge a face do herói, com a fúria estampada na fronte, Lucimar, o Lúcio, surge voando no meio da área americana e cabeceia o gol da vitória. Em lágrimas de alegria ele corre para o abraço! Os produtores executivos da Universal Studios não acreditavam no que viam, um potencial blockbuster escorria por entre seus dedos. Agora teriam que voltar sua atenção para o filme em homenagem a Michael Jackson, “Moonwalking with children”.

Mas a verdadeira motivação de Lúcio ninguém sabia. Se mostrar útil ao Bayern Munich? Amor a pátria? Que nada, ele queria é ser interpretado por Clive Owen.

terça-feira, 16 de junho de 2009

Mais um sonho

Depois de uma tarde ociosa, tirou o atraso dos livros que tanto queria ler. Página, olho por cima do livro, dedo na língua, página. Cansada da solidão e da visita regular dos mesmos, queria ficar um pouco sozinha. Já era autosuficiente e sentia-se feliz aconchegada no sofá com dois cobertores. O pijama rosa bebê, que havia ganhado da sua mãe no inverno de 2005 - o mais frio de todos - continuava muito útil. Alguns passos até a cozinha, lendo e caminhando, foi servir o café e, sem nunca imaginar, tocou a campainha."Que saco, quem será?" Quando me sinto sozinha ninguém toca por aqui." As opções eram poucas: ela havia matado o trabalho de sexta-feira e o namorado estava na faculdade - o relacionamento já era broxa o suficiente para não acreditar qualquer surpresa. Sem o olho mágico tudo fica difícil. Perguntou "Quem é?" Sem resposta. "Quem é?" De novo. Deitou-se para olhar por debaixo da porta e ver uma sombra. Dois sapatos surrados. "De quem serão esses sapatos?!" Falou "Já vi os seus sapatos, diga quem és!". Por um segundo imaginou que poderia ser o porteiro surdo. Não, não. E o tarado da construção?! É, melhor não abrir. Ligou para o João, o namorado, e disse "amor, amor, tem um homem na minha porta, o que eu faço?" "Querida, abre e descobre, lembra do meu taco de beisebol na sua prateleira". Ok. "Pelo menos para isso ele servia." Caminhou sem fazer barulho até seu quarto, arrastou uma cadeira, também em silêncio, e foi até a porta. Abriu.

No mesmo instante começou a chorar. Colocou as mãos atrás do pescoço de sua inesperada visita e deu-lhe um beijo na testa. Quantos anos sem aquele rosto, carinho e cheiro tão familiar. Foi como se nunca houvessem se separado, o amava do mesmo jeito. Ele diz "Voltei para cuidar de ti, senti muitas saudades." Contaria que está namorando? Que havia trocado de faculdade? E o tempo de distância entre eles? "Esquece, logo teremos as mesmas conversas, afinal, ninguém é tão eu quanto ele." Conseguiu recuperar o fôlego e convidou-o à casa. Retirou rapidamente os cobertores do sofá e, sem convite, ele sentou. "Vou fazer um chimarrão para nós, como sempre fizemos, desde quando eu era uma criança, senti tanto a sua falta, meu pai."

sábado, 13 de junho de 2009

Budapeste

As luzes diminuem, dando aquele sutil aviso “sentem-se, vai começar”. Os corredores abarrotados começam a fluir, com pessoas voltando aos seus devidos lugares ou, desistindo de procurar um assento decente, sentando no primeiro lugar possível. Enfim o breu domina a sala. “Sentem-se, vai começar”. Tudo muito bom, conseguimos uma cadeira boa - no meio do teatro e fileira - estava tudo ótimo, até um bagual cabeçudo sentar em minha frente. Avisei a senhora ao meu lado, famosa por seu notável humor matutino e grosseria dos pampas, que teria de ver o filme torto para o seu lado a fim desviar da cabeça à frente, ação reconhecida com um agradável “Eu mereço”.

Começa finalmente o filme. Não vou comentar quanto a qualidade do longa, já que nem ao menos li o romance. A nobre senhorita ao meu lado – uma baixinha, não a de São Luiz Gonzaga – começa a fungar amavelmente. Nada contra isso, faço várias vezes, sou adepto dos fungos, ainda mais quando ataca a renite. Ô doençazinha dos infernos, sempre atacando nas piores horas, como provas, filmes e almoço. Mas chega desse papo nasal, ou começarei a divagar – um assunto por vez, certo? Os fungos, antes amáveis, começaram a incomodar um pouco, e, somados a grandiosa idéia de colocar as legendas do filme no limiar inferior da tela e à notória cabeça, começaram a me dar nos nervos.

Quando fico nesse estado inquieto, começo a bater o pé, hábito muito apreciado nas salas de aula e teatros. Com o capricho de uma deusa grega, a Dama das Pradarias Rio Grandenses disse um singelo “Porra bicho, para com isso, coisa chata”, acabando com meu barato galopante. Estranhamente a fileira continuava a tremer mesmo com o cessar de meus coices, e sentia o olhar gaúcho me fuzilando por algo que não fiz.

Mas, ainda assim, contrabalanceei a situação e, para encurtar o relato, vi o filme até o fim. E, com essa pequena história, fiz você, venerável leitor, perder alguns minutos de existência filosoficamente útil. Espere a Carol postar algo para melhorar o intelecto deste blog.