
- Para os norte-americanos a democracia é isso: deixar que em seu país todo mundo vote e passe o weekend lendo tiras humorísticas, deixar que todo mundo (menos os negros que estão em penitência ) se sinta que é cidadão, e por outro lado aproveitar o trabalho da chusma latino-americana. Para mim, ao contrário, a democracia é isto: escrever todos os dias um editorial de exemplar maturidade e correção política, e telefonar em seguida para o Chefe de Polícia para que de um arrocho em meus operariozinhos em greve. Eu não tenho dúvidas. Já que me coube nascer num país de merda, eu lhe correspondo. Eu o uso para mim, isso é tudo. Seu bisavô falava de Pátria, seu paizinho fala sobre Nacionalismo, você fala sobre Revolução. Eu falo de mim, garoto. Mas garanto que sei mais do meu tema que vocês do seu. Que somos colônia? Claro que sim. Afortunadamente. Mas, diga-me. Quem aqui quer ser independente? Vejamos essas bombinhas, por favor. Juro que não me assustam. Uma coisa eu te digo. É mais provável que um dia um operário que eu despeça ou insulte, porque gosto de insultá-los, vá ruminando até sua casa, rumine um pouco mais enquanto toma seu mate, então compre um revólver, volte até a fábrica e me dê um tiro; é mais provável que isso aconteça um dia e não que suceda algo tão descartável e tão insólito que seus esquerdistas de botequim se porem de acordo, armarem finalmente o quebra-cabeça de seus escrúpulos e suas tendências e decidam por uma bomba em meu Impala. Para matar um sujeito tem-se que acordar corno ou ter colhões ou estar bêbado. E vocês tomam coca-cola.
Mário Benedetti é muito conhecido por suas maravilhosas poesias - uma delas já postada aqui há muito tempo. Mas como minha paixão é pela prosa, não pude evitar de comprar Gracias por el fuego (1965), o terceiro romance do brilhante uruguaio. E sim, mesmo traduzido, o nome do livro continua em espanhol.