quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Liberté!

Sento no meu computador e abro o Word, hora da crônica para o meu blog coorporativo. O que escrever? Crônicas falam do cotidiano, então vamos lá. O que está na moda, mesmo? Liberdade de expressão, gesuixarlí, humor caustico, liberdade de imprensa. Colegas fazem piadas com pretos ou viados, são processados e oferecem bananas ao preto pobre coitado: são perdoados. Acendo um marlboro vermelho, tomo um gole de merlot e me sinto o próprio Bukowski, com algumas pitadas de Rubem Braga - claro sou brasileiro, um latino-americano potência, só que não, na verdade não tenho água, mas isso não me importa; talvez me importe, mas se eu escrever sobre isso puxam minha orelha. Melhor é fazer humor caustico, nada acontece, chutar cachorro morto é (p)arte da profissão.           

Começo falando qualquer coisa divertida, sobre alguma minoria, o que é bem fácil, pois são caricaturas de minha posição. Humor crítico, claro, mas só os bons entenderão. Alguns parágrafos mordazes, geniais, ácido puro jogado no coração do Brasil. Releio, corrijo meus erros, amolo umas piadas. Agora sim, perfeito, é só publicar e compartilhar nas redes sociais.

Espero meu ego. Alguns minutos e os primeiros comentários, vários adoraram, fãs, compartilham nas suas contas, meu texto ganha vida própria.

Horas depois, minha humilde postagem é colocada em um site esquerdista – ah, essas crianças que não amadurecem e não percebem como o mundo funciona... – e começam a me chamar de coisas ruins: racista e elitista principalmente. Falam mal da minha visão de mundo. Poxa, como assim? Saudades de quando os pretos e viados não se ofendiam. Onde foi parar a liberdade de expressão? Não posso achar graça da felicidade idiota de pão e circo destes pobres diabos? Termino meu vinho e acendo outro cigarro. Minha cabeça gira um pouco, então lembro da minha felicidade instantânea; jogo uma pílula pra dentro, pena que o vinho acabou.

A postagem continua rendendo, vários visitam meu blog. Modero os comentários, claro, existem muitos robôs comentando por ai. Muitos me elogiam, é verdade sou o Nelson Rodrigues moderno, pena que não gosto de futebol – outro exemplo de pão e circo dos pobres diabos. Alguns falam mal de mim, adoro seus erros de ortografia, será que não estudaram?

Droga, estão me interpretando errado. Mas como? As palavras e o humor falam por si!

O chefe me passa um email e pede para que eu me retrate. Ele me entende, também curte o gesuixarlí e toda aquela fraternidade e igualdade francesa, mas fala que a Companhia tem uma imagem pública a manter. Ele está certo, temos que ser moderados, afinal pretos, pobres e veados compram nossos produtos e não podemos viver sem eles. Acendo outro cigarro e abro outra garrafa de vinho para me inspirar, escrevo um parágrafo. Não peço desculpas, me inspiro no âncora que falou dos idiotamente orgulhosos garis. Falo que não entendem humor, que posso me expressar e que temos que nos lembrar dos franceses. Sim, agora meu texto é um protesto.


E assim me finjo crítico, humorista e jornalista, promovendo o senso comum. Termino com um ponto final com som de foda-se.

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